Acordo entre facções transforma comunidade de Realengo no corredor estratégico do tráfico na Zona Oeste

Zona Oeste do Município do Rio de Janeiro, 03 de maio de 2026.

Uma investigação da Polícia Civil do Rio de Janeiro revelou que o Comando Vermelho (CV) firmou um acordo com a facção rival Amigos dos Amigos (ADA) para usar a comunidade Jardim Novo, em Realengo , como rota estratégica de expansão pela Zona Oeste. A aliança foi descoberta após a interceptação de mensagens entre Carlos da Costa Neves, o “Gardenal” — principal braço operacional do CV —, e um membro da milícia.

Nas conversas interceptadas, Gardenal revela ter acesso livre ao Jardim Novo, comunidade comandada pelo traficante Lucas Apostólico da Conceição, o “Índio” , que está foragido da Justiça. “Jardim Novo. Posso entrar a hora que eu quiser”, escreveu Gardenal. Contra ele, constam 17 mandados de prisão expedidos pelo TJRJ.

Por meio desse corredor, o CV passou a planejar ataques a territórios controlados por milícias e pelo Terceiro Comando Puro (TCP) em comunidades de Bangu, Campo Grande e Santa Cruz , além de avanço em direção à Taquara, Praça Seca e à Favela Rio das Pedras.

Na troca de uso do Jardim Novo, o traficante Índio recebeu a garantia de não ser atacado pelo CV e passou a contar com a estrutura da facção para proteger seus negócios.

“A investigação evidenciou a existência de um corredor criminoso usado por organizações criminosas separadas. A ADA teria a garantia de não ser atacada. Já o CV usaria o local como base ou passagem para favelas da Zona Oeste”, explicou o delegado Alamberg Medeiros Miranda , da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE).

Segundo a polícia, a Zona Oeste é hoje a única região da cidade onde os quatro maiores grupos de infratores atuam simultaneamente : CV, TCP, milícias e ADA. Esta última, a menor entre eles, controla territórios em Padre Miguel e Realengo.

Operação e violência ligada ao grupo

O grupo liderado pelo Índio também é investigado pela tortura e morte de Naysa Kayllany da Costa Borges Nogueira , ocorrida em 3 de janeiro de 2026, na comunidade da Light, em Realengo. A vítima foi espancada por membros do tráfico local sob suspeitas de desvio de dinheiro, foi atendida na UPA de Magalhães Bastos, mas não resistiu aos ferimentos.

Outro nome que aparece na investigação é Celso Luís Rodrigues, o “Celsinho da Vila Vintém” , apontado como um dos chefes da ADA e fundador da facção. Preso em maio de 2025 durante a operação em Padre Miguel, obteve habeas corpus no mesmo mês e passou a responder ao processo em liberdade. Nos anos 1990, chegou a ser o crime mais processado do Rio, cumprindo 25 anos de prisão por tráfico, formação de quadrilha e homicídios.

Por Jessé Cardoso / Ass. Imprensa

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